







Por Monica Guedes Rio de Janeiro, 1º de maio de 2010
Ultimamente tenho pensado nos nossos velhos mais do que nunca. Não sei por que exatamente, talvez inconscientemente tente mantê-los sempre por perto. Ou talvez tenha despertado para nosso momento. Disto não tenho dúvida: este momento é nosso, desta família. A diferença é que cada um de nós o vive de uma forma diferente.
Fico me perguntando se todos vocês tem a mesma dificuldade que eu tenho de me afastar deles ao término dos dias de domingo. A vontade é ficar por lá e deixar que a segunda-feira se exploda. O que tem de tão importante nas segundas-feiras? Reuniões? Compromissos? Para quê segunda-feira sem eles? Como seriam nossas segundas-feiras se não fossem eles?
Estes dois são incríveis: duas figuraças. Sempre me lembro de quando depois da festa do último aniversário da Beth cheguei a casa deles por volta de 1 hora da madrugada e os encontrei sentados no sofá com o Márcio e a Rosana contando histórias engraçadíssimas do passado com uma lucidez absurda. Estavam tão bem, tão leves e divertidos, que poderíamos ficar ali até de manhã sem ver o tempo passar. Depois deste dia papai começou a piorar gradativamente até que passou mal em uma segunda-feira. Sempre esta droga de segunda-feira. Minha sorte foi que naquela segunda-feira fiquei com eles. Tá certo que foi um tempo na UPA tentando convencê-lo a tomar a medicação endovenosa, fazer o RX, contar a verdade para o médico, mas não importa. Naquele dia mandei as favas o restante do mundo. Aquela segunda-feira foi uma merda, mas tudo bem, estávamos juntos...
Pensando nisto me lembrei de um texto da Martha Medeiros (incrível, um texto dela que preste!) que define bem este momento que vivemos e gostaria de compartilhá-lo com vocês.
Aí vai:
Nossos Velhos - Martha Medeiros
Pais heróis e mães heroínas do lar
Passamos boa parte de nossa existência cultivando estes estereótipos
Até que um dia o pai herói começa a passar o tempo todo sentado, resmunga baixinho e puxa uns assuntos sem pé nem cabeça
A heroína do lar começa a ter dificuldades de concluir as frases e dá de implicar com a empregada.
O que papai e mamãe fizeram para caducar de uma hora para outra?
Envelheceram...
Nossos pais envelhecem!!!
Ninguém havia nos preparado para isto
Um dia eles perdem o garbo, ficam mais vulneráveis e adquirem umas manias bobas
Estão cansados de cuidar dos outros e de servir de exemplo: agora chegou a vez de eles serem cuidados e mimados por nós, nem que para isso recorram a uma chantagenzinha emocional
Tem tanta quilometragem rodada e sabem tudo, e o que não sabem eles inventam
Não fazem mais planos a longo prazo, agora dedicam-se a pequenas aventuras, como comer escondido tudo que o médico proibiu
Estão com manchas na pele
Ficam tristes de repente
Mas não estão caducos: caducos ficam os filhos, que relutam em aceitar o ciclo da vida
É complicado aceitar que nossos heróis e heroínas já não estão no controle da situação
Estão frágeis e um pouco esquecido e tem esse direito, mas seguimos exigindo deles a energia de uma usina
Não admitimos suas fraquezas, seu desânimo
Ficamos irritados e algumas vezes chegamos a gritar se eles se atrapalham com o celular ou outro equipamento e ainda não temos paciência para ouvir pela milésima vez a mesma história que contam como se acabassem de tê-la vivido
Em vez de aceitarmos com serenidade o fato de que as pessoas adotam um ritmo mais lento com o passar dos anos, simplesmente ficamos irritados por eles terem traído nossa confiança, a confiança de que seriam indestrutíveis como os super-heróis
Provocamos discussões inúteis e nos enervamos com nossa insistência para que tudo seja como sempre foi
Essa nossa intolerância só pode ser medo
Medo de perdê-los, e medo de perdermos a nós mesmos
Com todas as nossas irritações e falta de paciência, só provocamos mais tristeza àqueles que um dia só procuraram nos dar alegrias
Por que não conseguimos ser um pouco do que eles foram para nós?
Quantas noites estes heróis e heroínas passaram ao lado de nossa cama, medicando, cuidando e medindo febres!!
E nós ficamos irritados quando eles se esquecem de tomar seus remédios, e ao brigar com eles, os deixamos chorando, tal qual crianças que fomos um dia
É uma enrascada essa tal de passagem do tempo
Nos ensinam a tirar proveito de cada etapa da vida, mas é difícil aceitar a etapa dos outros
Ainda mais quando os outros são nossos alicerces, aqueles para quem sempre podemos voltar e sabemos que estarão com seus braços abertos, e que agora estão dando sinais de que um dia irão partir sem nós...